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A Sibila Délfica - Teto da Capela Sistina - Michelangelo


Em 1505 Michelangelo recebeu do Papa Júlio II a encomenda da decoração do teto da Capela Sistina, no Vaticano. Nesta época as paredes laterais já estavam ocupadas com grandes painéis de Perugino e Botticelli que retratavam passagens do Antigo Testamento. A intenção do Papa era cobrir o teto com as figuras dos 12 apóstolos contra um céu estrelado, mas Michelangelo surpreendeu o mundo com um complexo projeto de decoração.
A longa faixa central do teto foi dividida em noves painéis com narrativas do Livro do Gênesis, reunidos agrupados em três grupos temáticos: a criação do mundo, a criação e queda da humanidade e, finalmente, a humanidade no tempo de Noé. Nos espaços triangulares acima das janelas da Capela, Michelangelo inseriu os ancestrais de Cristo. Sobraram assim, doze lotes retangulares nas laterais do teto. Novamente recusou a idéia de representar os doze apóstolos e no local inseriu sete profetas do Antigo Testamento intercalados com cinco sibilas gregas, as famosas profetisas do mundo pagão greco-romano. Ao todo Michelangelo criou na Capela mais de trezentas figuras, o que lhe consumiu quatro anos de trabalho solitário (1508-15121). Qual era o plano de Michelangelo? Por que trazer imagens pagãs para o seio da Santa Sé?
Em primeiro lugar é preciso lembrar que o gosto pelas sibilas era comum entre os homens da elite erudita européia do século XV e adequava-se a seus sentimentos humanistas. Havia a crença geral, desde a Idade Média, segundo a qual a filosofia grega era uma antecipação da mensagem de Cristo. Assim, enquanto a pregação dos profetas representa a Igreja dos Judeus (Ecclesia Iudaeorum),a pregação das sibilas é apontada como representativa da Igreja das Nações (Ecclesia Gentium).
Segundo Pelikan, Jaroslav Pelikan, que escreveu a obra “A imagem de Jesus ao Longo DosSéculos” (São Paulo, Cosac & Naif, 2000), os pensadores medievais cristãos procuraram descobrir na cultura greco-romana as perguntas para as quais o nome de Cristo seria a resposta, uma vez que Cristo fora anunciado como a “a luz para iluminar as nações”. Assim como surgiram técnicas para interpretar o Antigo Testamento como anuncio de Jesus, também se procurou interpretar mensagens da cultura pagã como verdadeiras profecias não judaicas de Cristo. O Imperador Constantino e o bispo Agostinho (século 5 d.C) consideraram uma passagem do poema de Virgílio (morto em 19 a. C), a Quarta Écloga, como uma referência a Jesus já que continha vários elementos correlatos à Bíblia. Vejamos o trecho do poema surgido antes de Cristo ter nascido.

Eis que retorna a virgem
Uma nova raça humana a descer das alturas do céu
O nascimento de uma criança, com a qual a idade de ferro da humanidade
Chega ao fim e uma idade de ouro se inicia
Sob a tua orientação, por mais que restem vestígios de nossa antiga podridão,
Uma vez livre dela, a terra estará liberta de seu medo incessante
Por ti, ó menino, a terra sem ser arada
Há de dar frutos infinitos
O teu mesmo berço há de derramar por ti
Ternas flores. Também a serpente há de morrer
Aceita as tuas grandes honras, pois em breve chegará o tempo,
Doce filho dos deuses, grande herdeiro de Júpiter
Vê como ele se abala – o poder abobadado do mundo.
A terra e o vasto oceano e as profundezas do céu
Tudo, vê, tomado de alegria pela era que nasce
(Virgílio – Quarta Écloga).

Há elementos bíblicos facilmente localizáveis neste texto: a vinda da virgem milagrosa e do filho divino (Is 7,14; 9,60) e a idéia de “um novo céu e uma nova terra” (Is 66, 22). A aplicação mais inesquecível da 4ª Écloga acha-se no Purgatório de Dante, que cita os versos de Virgílio e acrescenta: “através de ti eu me tornei poeta e fiz-me cristão”. Virgílio também faz referência à tradição dos oráculos sibilinos, destruídos em um incêndio em 83 a.C. e reorganizados, com inúmeras interpolações bíblicas e adulterações, nos séculos seguintes. Nos primeiros séculos os cristãos citavam os oráculos sibilinos – principalmente a Sibila de Cumas – como inspirados pelo Espírito Santo e tão sagrados como a própria Bíblia.
Na teologia e no folclore medieval as profecias sibilinas foram amplamente acolhidas. A cristianização das sibilas alcançou seu auge justamente na arte renascentista com Michelangelo.
Segundo o teólogo Clemente de Alexandria - ressalta ainda Pelikan - a filosofia foi dada aos gregos até que Deus os chamasse. Foi, portanto, uma tutora destinada a conduzir a mente grega até Cristo. Para Clemente, Sócrates foi um protótipo de Cristo: ambos traziam uma mensagem que era divina em sua origem; ambos foram mortos pelos que se sentiam ameaçados por essa mensagem. O Logos divino tinha sido ativo em Sócrates, que denunciou o politeísmo e a adoração dos gregos ao diabo. Foi um cristão antes de Cristo. Clemente também localizou na República de Platão uma profecia: aquele que se mantiver firme até a hora da morte, apesar de ser acusado de ser o pior dos homens, “será açoitado, torturado, amarrado, terá os olhos queimados e, por fim, depois de sofre todos os males será empalado ou crucificado”, diz Sócrates a Glauco.
Vemos, portanto, que a Idade Média legou ao renascimento a crença numa longa linhagem entre a cultura pagã greco-romana e a Palavra de Deus. Falta ainda esclarecer como Michelangelo absorveu esta herança e também o significado da quantidade de profetas e sibilas.
Para responder a estas questões o historiador da arte Edgar Wind escreveu um artigo inquietante chamado “Michelangelo’s Prophets And Sibyls” (In HOLMES, Georges – Art And Politics In Renaissence Italy – Oxford University Press,1991). O autor sustenta que as pinturas do teto da Capela Sistina seguem uma “doutrina teológica sobre profecia” inspirada num panfleto religioso de Savonarola. Intitulado “Dialogo della verità profetica” o panfleto, exibindo um estilo baseado em Sócrates e Platão, apresenta o próprio pregador florentino entre sete seguidores vestidos de forma exótica, representando cada qual um dos sete dons do Espírito Santo.
Girolamo Savonarola (1452-1498) foi monge dominicano, chefe do Convento de São Marcos em Florença, cidade em que teve grande sucesso como pregador popular. Suas profecias e seu governo a frente da Signoria de Florença (1494-1497), marcado por sua ditadura teocrática e moralizante, despertou a revolta da Igreja e do Papa, principalmente pelas acusações de corrupção que Savonarola proferia contra a corte papal. Foi enforcado e queimado em 1498, dez anos antes dos trabalhos do teto da Capela
Sabe-se que o pregador causou forte impressão no círculo de intelectuais de Florença, principalmente entre os neoplatônicos, em Pico della Mirandola, meio com o qual Michelangelo travava contato permanente.
As pregações destas mulheres, sem a preparação da “verdadeira fé”, parece valorizar ainda mais sua estatura como profetisas. Pinturas como a de Mantegna ( A Sibila e o Profeta, Cincinnati Art Museum) indica sem qualquer dúvida a superioridade das sibilas sobre os profetas hebreus. O Sacrifício de Noé, de Michelangelo, presta sua homenagem às sibilas, colocando uma das três noras como uma pregadora, administrando o culto no altar, enquanto as outras duas trabalham. Prenunciando a futura união da Igreja das Nações com a Igreja dos Judeus, a sibila casa-se numa família do Antigo Testamento antes do Dilúvio.
Uma lenda aprócrifa narra a profecia de uma sibila da Babilônia, mas conhecida como sendo da Eritréia, que previa o Dilúvio, a salvação em uma arca com animais, flutuando sobre as águas, sob o comando do único homem íntegro que restou no mundo. Ela se dizia nora deste homem. Um editor de Veneza do século XV publicou um livro dos sermões de Savonarola, cuja capa exibia uma sibila, “nora de Noé”. No perímetro da figura está escrito em hebreu, latim e grego : “sem mim nada podeis fazer” (João 15,5), referindo-se aos livros que seriam, assim, inúteis sem o dom da profecia dado pelo Espírito Santo.
Edgar Wind sustenta ainda que os profetas correspondem aos sete dons do Espírito Santo, como apresentados na primeira tradução latina da Bíblia, escrita em 386, por São Gerônimo. No livro de Isaías está escrito: “Um ramo sairá do tronco de Jessé, um rebento brotará de suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de inteligência, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor. No temor do Senhor estará sua inspiração.” (Is 11,1-3).
O autor demonstra, caso a caso, como cada expressão, cada gesto de cada figura caracteriza um determinado dom do Espírito Santo. E para as sibilas também há referência profética inspirada na Bíblia.
Uma lista de dons espirituais, especialmente designados aos gentios, foi apresentada por São Paulo:
- “Que fazer, pois, irmãos? Quando estais reunidos, cada um de vós pode cantar um cântico, proferir um ensinamento, ou uma revelação, falar em línguas ou interpretá-las; mas que tudo se faça para a edificação” (1 Cr 14,26).
Santo Agostinho retoma esta passagem de Paulo para explicar a natureza dos cinco dons e diz que “isto pertence a perfeição com a qual o Espírito Santo opera” nas mentes e nas visões presentes no Antigo Testamento, mas também sobre a língua e a palavra, como no Novo Testamento (1 cr 14,26).
Erasmo, que esteve em Roma como convidado de um cardeal, no período em que Michelangelo começava a pintura da Capela, também retoma a mesma passagem para explicar os cinco dons: Cântico (psalmus), ou salmo, significa “cântico místico” em louvor a Deus; Ensinamento (doctrina) ele define como uma instrução moral que relata a boa conduta; Língua é naturalmente o dom das línguas que clama por Interpretação (Interpretatio), isto é, a capacidade de tornar inteligível as vozes estranhas; Revelação (revelatio) refere-se ao poder exegético de detectar significados ocultos e remotos nas palavras das escrituras.
O autor observa que dois destes dons são “exaltações proféticas extremas”: o canto místico e o falar em línguas; os outros três são “mais reflexivos”: interpretação; doutrina e revelação.
E finalmente chegamos a nossa linda sibila em questão. Para Wind a sibila délfica representa especificamente o dom do “falar em línguas”, reservado por Deus aos povos “pagãos”, segundo a pregação citada de São Paulo.
Chamam a atenção a doçura e a delicadeza da expressão desta sibila. Olhos arregalados voltados a uma visão não revelada ao observador, rosto arredondado e afinado, boca pequena e avermelhada, semi-aberta, nossa sibila deixa transparecer o branco dos dentes, talvez assim dando vazão também à mensagem em língua desconhecida até por ela mesma, mensagem que clama por interpretação e que, por isto, lhe causa ansiedade.
É interessante notar como Michelangelo constrói em suas figuras uma tensa e contraditória relação entre espírito e corpo. Seus corpos se transformaram numa marca registrada ao longo da história da arte. Rubens, Rembrandt e tantos outros retirariam dali seu modelo de corpo. Músculos, atléticos e de anatomia perfeita, suas figuras humanas (masculinas ou femininas) revelam um minucioso estudo da musculatura e da estrutura óssea do corpo humano. Aparecem em atitudes complexas, com movimentos estressantes, contorções sufocantes e escorços até então nunca produzidos. A Capela Sistina se transformou num verdadeiro mostruário do corpo humano em todas as posições possíveis, sem limite para os desafios que o autor colocou para si mesmo.
A posição espiralada passou a ser uma das especialidades do pintor. Muitas sibilas e alguns profetas surgem em movimentos de rotação sobre o eixo vertical de seus próprios corpos, lembrando o movimento bruxuleante da chama uma vela. A rotação é assim construída: o pé direito direciona-se para a esquerda, enquanto o braço esquerdo segue em movimento inverso (ou vice e versa), colocando todo o resto do corpo em contração refreada. Veja-se a sibila líbia e o profeta Jonas, por exemplo. Os músculos estão sempre tensionados, embora não haja qualquer motivo mecânico para isto, não há peso ou pressão que possa gerar tal contorção. A superfície da pela aparece pressionada de dentro para fora, como se a verdade revelada a estes mortais não pudesse ser contida em seus corpos.
Gustave Moreau, expoente máximo da escola simbolista do século XIX, admirava em Michelangelo o que chamou de “sonambulismo ideal” de suas figuras. Segundo Moreau os homens e mulheres de Michelangelo se apresentam inconscientes de seu próprio movimento, absortos em devaneios a ponto de serem conduzidas para outros mundos. De fato, nossa linda sibila concentra-se em algo que, embora se situe além da percepção sensorial, contamina todo o seu corpo esguio, que não perde a feminilidade, mesmo com seus traços viris, algo como as belas mulheres que atualmente aprimoram as curvas sensuais de seus corpos nas academias de ginástica. No entanto, a expressão não reflete o movimento do corpo. É o que acontece também ao profeta Jonas, que recua diante da revelação divina, assentado em local estratégico no plano pictórico da Capela.